Claudio Mello em 22-11-2016

Carnaval e empréstimos. Cultura do Brasil?

Os hábitos do empresário brasileiro de pegar empréstimos descontroladamente, antecipar recebíveis, e outras operações que implicam em pagamento de juros - sem se importar com o impacto que isso terá no custo financeiro da empresa ou no lucro da mesma - são culturais? Veja como eles podem ameaçar sua saúde financeira e econômica.

Os hábitos do empresário brasileiro de pegar empréstimos descontroladamente, antecipar recebíveis, e outras operações que implicam em pagamento de juros - sem se importar com o impacto que isso terá no custo financeiro da empresa ou no lucro da mesma - são culturais? Veja como eles podem ameaçar sua saúde financeira e econômica.
Na folia dos empréstimos, sua saúde financeira pode ir parar no 'Bloco da Quebradeira'.

Ah! o carnaval..., época tão esperada pelos brasileiros que gostam de samba ou pelos que querem apenas um bom motivo para descansar. Inevitável não ouvir os "hits" da Bahia e as antigas e tradicionais marchinhas de carnaval, e uma delas me chamou a atenção: "Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí",... 

Ao que parece, tanto o carnaval, como o empréstimo ou as compras em prestações agradam bastante ao brasileiro. O que não se mede, se pensa ou se sente é o preço dessas operações, também conhecido como juros. 
Sem falar que a quantidade de instituições financeiras, os tipos de empréstimos e linhas de financiamento que são oferecidos no mercado, são de uma diversidade tão grande que chegam a confundir o cliente. Existem também outros encargos que geralmente são incluídos no pacote, mesmo que o cliente não tenha ciência deles o que deixa a conta mais salgada ainda, mas como é diluído em várias e suave prestações, o cliente sai satisfeito, apesar de prejudicado. 

Dentre elas podemos citar a TAC (taxa de abertura de crédito) e ou taxa de garantia no caso de ausência de fiador, taxa de alienação e depois, de desalienação de bens, caso algo seja dado em garantia do empréstimo.

O que a grande maioria das pessoas desconhece é que existem duas grandes famílias de juros: Os antecipados (que se dividem em por dentro e por fora) e os postecipados ( que se dividem em juros simples e juros compostos). 

Os antecipados, como o nome já diz, são usados para antecipar algo que acontecerá no futuro, trazendo-o para o presente, e alguns exemplos disso são:
- Desconto de cheques pré-datados, desconto de cartão de crédito ou de duplicatas. E os postecipados, como o nome já diz também, são usados para levar para o futuro algo que está acontecendo hoje, e alguns exemplos disso são:
- Financiamento de veículos, ou o simples fato de pegar empréstimos, onde você recebe o benefício no presente, mas pagará as prestações no futuro.

A questão é que, quando se desconta um cheque, você recebe um valor menor do que o valor do cheque, essa diferença que fica com o banco se chama Juros e é o custo dessa operação financeira que pode ser acrescida de outras taxas mencionadas acima. Então, olhando para os juros antecipados, você pode se estar perguntando: Então qual a diferença dos juros por dentro e por fora? Não tem nada a ver com ser por dentro ser legal ou por fora ser ilegal, mas sim que os juros por dentro, a taxa da operação vai incidir ou atingir o valor do capital, ou seja, o valor que efetivamente o cliente leva no bolso para casa. 

Já nos juros por fora, a taxa da operação vai incidir sobre o montante, que é composto por pois itens: o capital (o valor que o cliente leva no bolso pra casa), mas também incide sobre o valor dos juros cobrado pelo banco pra realizar a operação. É isso mesmo que você leu, nos juros por fora, o banco cobra juros sobre os juros da operação que ele está fazendo com você, por isso é que se diz que banco cobra juros sobre juros. O mesmo acontece nos juros postecipados: Nos juros simples a taxa da operação vai atingir apenas o capital, e nos juros compostos a taxa da operação vai incidir sobre o montante formado pelos dois itens: capital e juros, e mais uma vez o cliente pagará juros sobre algo que ele não está levando para casa e que ficará com o banco. 

O sistema financeiro brasileiro autoriza os bancos e outras instituições financeiras a trabalhar nos dois sistemas, ou seja, é legal (autorizado por lei), cobrar juros por dentro ou por fora, simples ou compostos. Já que a legislação autoriza, advinha qual dos dois os bancos e instituições cobram das pessoas? 

Acertou quem respondeu: por fora e compostos, onde existem juros sobre juros. Caso você tenha a curiosidade de perguntar como isso funciona ao seu gerente do banco, existem duas grandes possibilidades: A primeira é ele ou ela não conhecerem juros por dentro ou juros por fora, mas apenas juros simples e compostos. A segunda grande possibilidade é que eles digam que não podem fazer muita coisa, pois o sistema de computadores do banco já está programado para cobrar juros por fora e compostos em todas as operações.
Como conhecimento é poder, você pode argumentar que realmente ele não pode mudar o sistema bancário, mas que pode melhorar a taxa que você paga em suas operações financeiras, quando pega empréstimos ou desconta cheques, por não ser coerente você pagar juros sobre algo que não está levando. 

Pense também que quando você vende a prazo, você está deixando de receber a vista, e por isso o dinheiro empatado no seu produto vendido ou no serviço prestado deveria ser remunerado até que ele voltasse para você. Cabe a você decidir se vai cobrar isso do cliente ou não por meio de uma decisão estratégica ou de marketing da sua empresa. 

Existem 3 fatores que vão influenciar na quantidade de dinheiro que você precisa para fazer a sua empresa funcionar, ou seja, a sua necessidade de capital de giro, para que você trabalhe sem ter que pegar empréstimos: 

  • O primeiro é o prazo médio de pagamento a fornecedores, porque pra fabricar, vender algo, ou prestar um serviço você precisa de matéria prima. Cuidado em pagar ao fornecedor sempre à vista, isso promove um desembolso imediato de mais recursos, que poderão vir a faltar na hora de pagar outros compromissos como: Aluguel, folha de pagamento, impostos, água, luz, etc. Você deve fazer uma avaliação se o desconto que ele lhe dá, à vista, compensa o desembolso imediato.
  • O segundo fator é o seu prazo médio de estocagem, que é o tempo que se inicia com a chegada da matéria prima, tempo de fabricação, tempo que ela fica na prateleira sendo exposta a venda e termina na hora que o produto é vendido.
  • O terceiro fator é o prazo médio das suas vendas: Cuidado quando você der longos prazos de pagamento para o seu cliente, isso vai fazer com que o dinheiro demore a retornar ao seu caixa e você vai precisar buscar mais no banco e pagar mais juros por isso. Uma atitude saudável é sempre pedir um valor de entrada na hora da venda. Lembre-se de que além do prazo que você concede ao cliente, ele também pode atrasar o pagamento, e isso tem que ser considerado.


Esses três fatores, e alguns outros, vão determinar o tamanho da sua necessidade de capital de giro para fazer sua empresa funcionar, honrando seus outros custos, até que seus clientes paguem as parcelas da venda que você fez a prazo. 

Lembre-se de que, quanto mais empréstimos você tiver, mais juros você irá pagar, e esse dinheiro sai de algum lugar: Ou sai do seu lucro, ou é embutido no seu preço de venda, tornando seu produto mais caro e menos competitivo, e com isso caem as vendas e seu concorrente agradece. Então da próxima vez que ouvir a marchinha: "Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí", lembre de que junto com esse dinheiro, vêm os juros que incidem sobre o que você leva e também sobre o que fica com o banco. Faça bons negócios e aproveite o seu carnaval.

Claudio Mello

Mestre em Administraçao e Estratégica pela Fucape Business School, com MBA em gestao empresarial pela FGV, e administrador com especializaçao em matemática, ex-professor de faculdades e supervisor/gerente de empresas como banco Itau, Coca-cola, D&D home center,MORAR Construtora, Casa & Vídeo e Hbuster